Arte, Dor.

Inquietudes entre Estética e Psicanálise

rec_naranja_texto

Autor/es

FRAYZE-PEREIRA, JOÃO A.
rec_naranja_texto

Resumen

Pensar a percepção como fenômeno estético é a proposta mais ampla deste livro. Para desenvolvê-la, ao estudo da Epistemologia, da Estética, da Ética e da História, João Augusto Frayze-Pereira associou o da Psicanálise, não como método de diagnóstico e psicoterapia adaptativa e gestora de riscos sociais, mas como antropologia, como modo de reflexão sobre a relação tensa entre o homem e a cultura. Os textos que compõem Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise foram criados nesse lugar largo e fundo construído pelo autor para elaborar as inquietações trazidas pelo confronto com um mundo perturbador e com uma ciência que se mostrou incapaz de abrangê-las. É, portanto, um livro de temática complexa cuja apresentação exige, pelo menos, três observações.

Primeira: todos os ensaios aqui reunidos falam, cada um a seu modo, de percepção e política. Os parceiros são muitos: de um lado, pensadores (Starobinski, Gagnebin, Lyotard, Bachelard, Argan, Pareyson, Green, Mezan, Chauí, entre outros), de outro lado, artistas (Van Gogh, Degas, Rouault, Ernst, Dubuffet, Rothko, Orlan, Flemming, Rennó, entre outros). Mas a bússola vem, principalmente, de dois mestres da suspeita, Maurice Merleau-Ponty e Michel Foucault, “afinidades eletivas” que permitiram ao autor perceber que a Arte se faz no encontro de dois sentimentos: o sentimento da forma e o sentimento do mundo. Ambos reforçaram a linha das análises na direção contrária a uma Psicologia Fenomenológica abstrata que põe entre parênteses as determinações político-sociais da razão e da sensibilidade, ignorando a presença delas nas dimensões mais íntimas do indivíduo, de algum modo aprisionado nas malhas da sociedade disciplinar.

Em segundo lugar, não se trata de mais um livro de Psicanálise aplicada à Arte, mas de Psicanálise implicada nela. Na passagem da aplicação à implicação, uma crítica às concepções da obra de arte que a tomam como mero objeto a ser diagnosticado por um instrumento teórico que, aplicado de fora e como fórmula, quer atingi-la na sua objetividade. Ao fazê-lo, o máximo que consegue é reduzi-la a sintoma e eliminá-la como Arte. Quando voltou-se para a Psicanálise, João Frayze-Pereira foi em busca da elaboração do vazio teórico deixado pela superação de uma Psicologia que se mostrou incapaz de responder às suas indagações. Nesse sentido, a Psicanálise eleita por Frayze é a que “revoluciona a noção corrente de ciência” e recorre à experiência artística como forma privilegiada de conhecimento. Sem dúvida Freud é a sua terceira afinidade, pois há na teoria psicanalítica a possibilidade para uma concepção de psique como obra de arte que exige do analista atitude análoga à do espectador sensível na sua relação com a Arte. A atenção do psicanalista também flutua, nada negligente, e só assim pode fazer justiça à amplitude da Coisa e apreender-lhe o sentido. O fio que conduz os ensaios é a aproximação das experiências estética e psicanalítica, “experiências vizinhas” porque diante do mesmo enigma: a ambiguidade de um objeto que dissimula e revela, diz e não diz, é visível e invisível, presente e ausente, que perturba o espectador, interpela-o e o enleia num processo de construção sempre singular. E, assim, a Psicanálise, como a Arte, é ela também sentimento da forma e sentimento do mundo. Sem levar isso em conta, o analista despersonalizará o outro e a si mesmo e a relação sujeito-objeto será de exterioridade; não haverá intersubjetividade e a interpretação será violência.

Finalmente, em terceiro lugar, ao sondar a possibilidade da relação entre Arte e Dor, João Frayze apresenta-nos uma situação surpreendente: a Arte contém a Dor, pois Arte é Vida e Vida é Dor, muitas vezes insuportável até o ponto da anestesia. Em sua última entrevista, Foucault pergunta: “Mas a vida de todo indivíduo não poderia ser uma obra de arte? Por que um quadro ou uma casa são objetos artísticos, mas não a nossa vida?”. De novo, o espaço é aberto à Psicanálise implicada na Arte e na Vida. Mas abertura também a uma outra questão encantadora: a Arte como pensamento e este como crueldade. O pensar – sempre crítico, se quiser ter este nome – desaloja os homens dos lugares costumeiros, desafia a “fé perceptiva”, denuncia a observação como observância, desequilibra o corpo enrijecido, resgata a vida como experiência dolorosa. Em companhia de Foucault, o autor repõe a definição incômoda: “pensar é problematizar”. Ora, se pela perversidade calculada o artista pensa e faz pensar, a Arte não é banalização do mal. E, nesse aspecto, Frayze concorda com Arendt: o banal impede o pensamento. Em suma, essas e outras questões contidas neste livro inquietante abrem, ao leitor interessado em Psicanálise e em Arte, um campo que articula pensamento rigoroso e experiência inevitável da vertigem.

Maria Helena Souza Patto

rec_naranja_texto

Institución

Sociedade Brasileira de Psicanálise de  São Paulo (SBPSP)
rec_naranja_texto

Edición

Brasil, Ateliê Editorial, 2010 (2ª. edição)
rec_naranja_texto

Descriptores

Psicanálise – Estética – Dor – Arte
rec_naranja_texto

Contacto autor/es

joaofrayze@yahoo.com.br